A teia de Daniel Vorcaro e o esquema que abalou Brasília

Ilustração da teia de Daniel Vorcaro conectando o Banco Master aos Três Poderes em Brasília.

A Polícia Federal e os relatórios da Receita Federal revelaram detalhes impressionantes sobre a teia de Daniel Vorcaro em Brasília. A engrenagem funcionava sem qualquer distinção ideológica. O empresário cercou-se de autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário. Portanto, o objetivo era blindar seus negócios e acelerar suas operações financeiras.

A reconstrução da teia de Daniel Vorcaro mostra encontros pontuais e festas de luxo com degustação de uísque no exterior. Além disso, o esquema incluía caronas em jatinhos particulares e pagamentos diretos de propina. Da mesma forma, o banqueiro fechou contratos milionários de consultoria. Ele também buscou apoio no Congresso para alterar regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

A teia de Daniel Vorcaro estendeu seus braços de forma sistemática nas instituições públicas. No Banco Central, por exemplo, ex-diretores recebiam mesadas. Consequentemente, eles atuavam como consultores informais e barravam normas contrárias aos interesses da instituição. Ao mesmo tempo, parlamentares apresentavam propostas de lei e emendas que beneficiavam diretamente o Banco Master.

A situação do candidato a presidente Flávio Bolsonaro pelo envolvimento no caso Dark Horse

Entre os pontos de maior repercussão política na teia de Daniel Vorcaro está a relação com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). De acordo com o Coaf e registros de mensagens, o parlamentar solicitou financiamento ao banqueiro. O objetivo era bancar a produção de “Dark Horse”, um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O pedido inicial envolvia um patrocínio de aproximadamente US$ 24 milhões. As apurações revelaram que os repasses financeiros ocorreram em etapas:

  • Primeiros aportes: Entre fevereiro e maio de 2025, o banqueiro transferiu US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões à época).
  • Novas transferências: Posteriormente, o Coaf identificou um repasse adicional de US$ 1,66 milhão (aproximadamente R$ 8,2 milhões).
  • Montante total: Assim, as operações somaram cerca de R$ 69 milhões destinados ao projeto.

Em razão dessas movimentações, o senador virou alvo de investigação por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Além disso, ele visitou o banqueiro em São Paulo após a sua primeira prisão.

Quem se beneficiou com a teia de Daniel Vorcaro no meio político

Conforme detalhado no levantamento do Estadão, dezenas de autoridades figuram na lista de recebedores de repasses do ecossistema do Banco Master.

Leia: Caso Banco Master: Entenda o Esquema de R$ 543 Milhões e a Rede de Influência nos Tribunais

Propina e consultorias diretas no mercado

  • Paulo Henrique Costa (Ex-presidente do BRB): Acusado de receber R$ 146 milhões em propina por meio de imóveis de luxo. O BRB tentou comprar o Banco Master e adquiriu créditos podres da instituição.
  • Alexandre de Moraes (Ministro do STF): O escritório de sua esposa recebeu R$ 80 milhões do Banco Master. Além disso, mensagens revelaram encontros com o banqueiro.
  • Fábio Faria (Ex-ministro): Recebeu R$ 67,5 milhões através de um projeto de energia eólica. Ele atuou como o principal elo político do banqueiro.
  • Flávio Bolsonaro (Senador PL-RJ): Beneficiado com R$ 69 milhões para o financiamento do filme Dark Horse.
  • Dias Toffoli (Ministro do STF): Apontado pela PF como suspeito de ser o beneficiário final de um fundo que recebeu repasse de R$ 35 milhões no exterior.
  • Henrique Meirelles (Ex-ministro): Recebeu R$ 18,5 milhões por serviços de consultoria entre 2024 e 2025.

Outros contratos de grande porte no DF e Executivo

  • Guido Mantega (Ex-ministro): Recebeu R$ 14 milhões via consultoria. Ademais, intermediou uma reunião do banqueiro com o presidente Lula.
  • Ronaldo Vieira Bento (Ex-ministro): Recebeu R$ 11 milhões junto a empresas ligadas por consultoria em crédito consignado.
  • Michel Temer (Ex-presidente): Seu escritório recebeu R$ 10 milhões para consultoria e mediações antes da liquidação do banco.
  • Paulo Sérgio Neves de Souza (Ex-diretor do BC): Investigado por receber R$ 8 milhões para atuar como consultor informal do Master.
  • Kássio Nunes Marques (Ministro do STF): Uma consultoria ligada ao seu filho recebeu R$ 6,6 milhões. Além disso, viajou em jatinho do banqueiro.
  • Antonio Rueda (Presidente do União Brasil): Recebeu R$ 6,4 milhões por prestação de serviços de advocacia.

Repasses a políticos do Judiciário e Legislativo

  • Ricardo Lewandowski (Ex-ministro): O escritório utilizado por seus familiares recebeu R$ 6,3 milhões do Banco Master.
  • Ciro Nogueira (Senador PP-PI): Investigado por receber R$ 6 milhões em propina para defender interesses do Master no Congresso.
  • Jaques Wagner (Senador PT-BA): Acusado de receber R$ 6 milhões em propina ligados à venda do sistema Credcesta.
  • ACM Neto (Vice-presidente do União Brasil): Sua empresa de consultoria recebeu R$ 5,4 milhões pagos pelo banco.
  • Belline Santana (Ex-chefe do BC): Recebeu R$ 4 milhões em propina dissimulada por empresa de capacitação social.
  • Fábio Wajngarten (Ex-chefe da Secom): Recebeu R$ 3,8 milhões por serviços de assessoria.

Doações eleitorais feitas pelo operador da teia de Daniel Vorcaro

O empresário Fabiano Zettel, cunhado e operador do banqueiro, fez doações expressivas na eleição de 2022:

  • Jair Bolsonaro (Ex-presidente): Recebeu R$ 3 milhões em doação eleitoral no segundo turno de 2022.
  • Tarcísio de Freitas (Governador de SP): Beneficiado com R$ 2 milhões em doação direta de campanha.
  • Lucas Gonzales (Ex-deputado federal): Recebeu R$ 10 mil via Pix para sua campanha.

Vantagens em viagens e empréstimos no Congresso

  • Hugo Motta (Presidente da Câmara): O Master emprestou ao menos R$ 22 milhões para a empresa de sua cunhada. O parlamentar também admitiu encontros e caronas em jatinhos.
  • Nikolas Ferreira (Deputado PL-MG): Utilizou jatinho administrado pelo banqueiro em uma caravana de 10 dias em 2022.
  • Ibaneis Rocha (Ex-governadordo DF): Seu escritório recebeu repasses de fundos do ecossistema Master.
  • Autoridades em Londres: Andrei Rodrigues (PF), Benedito Gonçalves (STJ), Marcos Pereira (Deputado) e Paulo Gonet (PGR) estiveram em evento com uísque pago por Vorcaro.
  • Cláudio Castro (Ex-governador do RJ): Direcionou R$ 3 bilhões do Rioprevidência a ativos do Banco Master.
  • Caronas de jatinho: Isnaldo Bulhões, Bruno Bianco e Rodrigo Gambale viajaram nas aeronaves do empresário.

O impacto financeiro e o colapso da teia de Daniel Vorcaro

A expansão da teia de Daniel Vorcaro provocou prejuízos diretos aos cofres públicos. Diversos Institutos de Previdência de Servidores (RPPS) aplicaram recursos em papéis do Banco Master sem a devida cobertura de garantia.

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| Instituto de Previdência / Estado  | Valor Aportado           |
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| Rioprevidência (RJ)                | R$ 970 milhões           |
| Amapá Previdência (AMPREV)         | R$ 400 milhões           |
| Maceió Previdência (AL)            | R$ 97 milhões            |
| Cajamar Prev (SP)                  | R$ 87 milhões            |
| Itaguaí Previdência (RJ)           | R$ 59,6 milhões          |
| Manausmed / Amazonas (AM)          | R$ 50 milhões            |
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(Dados com base nas investigações da PF, auditorias internas e relatórios do MP).

Por fim, a ação do Banco Central e da Polícia Federal derrubou o sigilo das apurações. As tentativas de venda do banco falharam. Dessa forma, a liquidação da instituição foi decretada e os envolvidos passam a responder na Justiça.

Fonte: Jornal O Estadão, edição de 11/09/2026: Vorcarosfera: a teia de Daniel Vorcaro em Brasília

Pereira

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