
A Ordem dos Advogados do Brasil não pode continuar tratando as indicações para os tribunais como um procedimento burocrático comum. Essas escolhas influenciam diretamente a credibilidade do Judiciário. Por isso, a OAB precisa abandonar a postura passiva e adotar critérios realmente rigorosos.
Hoje, o que a sociedade espera não é discurso institucional. A sociedade espera transparência, independência e coragem para impedir favorecimentos pessoais. Quando isso não acontece, a imagem da advocacia também se desgasta.
O problema não é um caso isolado. É um padrão que começa a ficar evidente
O episódio recente ocorrido no Amazonas reacendeu um debate que nunca deveria ter sido ignorado. A indicação de uma advogada que é esposa de um desembargador do Tribunal de Justiça do Amazonas levantou um questionamento inevitável: o critério foi técnico ou pessoal?
Situações como essa não apenas enfraquecem a confiança na OAB. Elas também reforçam a percepção de que o sistema funciona para proteger quem já tem poder. Quando a sociedade passa a enxergar isso como regra, o prejuízo institucional é enorme.
E o problema não atinge apenas os Tribunais de Justiça. A imagem do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) também sofre quando a população começa a acreditar que as indicações seguem interesses pessoais.
A advocacia precisa reagir. O silêncio só aumenta a desconfiança
Quando indicações se baseiam em relações familiares ou pessoais, a credibilidade das instituições enfraquece rapidamente. Além disso, a própria advocacia perde autoridade moral para defender a legalidade e a ética pública.
O problema se torna ainda mais grave quando a classe aceita essas situações com naturalidade. A falta de reação fortalece a ideia de que tudo faz parte de um sistema de privilégios.
Por isso, a advocacia precisa acompanhar de perto cada indicação, cada eleição interna e cada decisão institucional. Não se trata de disputa política. Trata-se de preservar a credibilidade da própria profissão.
O afastamento de desembargadores no Mato Grosso do Sul mostra que o problema é real
O cenário recente em Mato Grosso do Sul não deixa mais espaço para dúvidas. Nos últimos anos, vários desembargadores do Tribunal de Justiça foram afastados por suspeitas extremamente graves.
O afastamento mais recente, ocorrido entre 2024 e 2025, está ligado à Operação Ultima Ratio, conduzida pela Polícia Federal. Segundo reportagens, cinco desembargadores foram afastados. A investigação envolve venda de sentenças, corrupção e lavagem de dinheiro, além da suspeita de participação de advogados, empresários e servidores.
Não se trata de uma irregularidade administrativa simples. Trata-se de suspeitas de comercialização de decisões judiciais. Quando isso acontece, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional.
O assassinato de um advogado tornou o caso ainda mais grave
Outro fato que ampliou a gravidade da situação foi o assassinato do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em Cuiabá, em 2023. O crime aconteceu e passou a ser investigado pela Polícia Federal.
Uma reportagem da imprensa nacional confirma que o assassinato do advogado Roberto Zampieri foi o ponto de partida para a investigação sobre venda de decisões judiciais. Leia a matéria completa da CNN Brasil que explica como o caso levou à investigação da Polícia Federal
Segundo as investigações, o celular do advogado continha conversas com empresários, lobistas e pessoas com acesso ao Judiciário.
É importante fazer uma distinção clara: o assassinato é fato comprovado. A investigação sobre venda de decisões também é real. No entanto, até o momento, não existe confirmação oficial de envolvimento direto de ministros de tribunais superiores.
Mesmo assim, o simples fato de a investigação ter chegado a esse nível já revela a gravidade do problema.
A crise não é apenas jurídica. É uma crise de confiança
Mais recentemente, reportagens indicam que três desembargadores ainda permanecem sob investigação. Alguns deles, inclusive, tentaram obter aposentadoria voluntária antes do julgamento final.
Isso reforça uma percepção perigosa: quando surgem acusações graves, o sistema parece proteger quem está dentro dele. E quando a população passa a acreditar nisso, a confiança nas instituições desaparece.
Além disso, ainda não existe confirmação pública de punições disciplinares contra advogados filhos de desembargadores. Isso não significa que não existam investigações. Significa apenas que o sigilo impede que a sociedade saiba o que realmente está acontecendo.
Sem transparência, a credibilidade da OAB e do Judiciário continuará em queda
Diante desse cenário, não basta repetir discursos sobre ética e responsabilidade institucional. A OAB precisa agir com firmeza e demonstrar independência real.
A advocacia também precisa reagir. Ignorar o problema não protege a instituição. Pelo contrário, apenas fortalece a desconfiança da sociedade.
Se indicações continuarem sendo vistas como favorecimentos pessoais, a credibilidade da OAB continuará diminuindo. E, junto com ela, também se enfraquece a confiança no próprio Judiciário brasileiro.
