Código de conduta no STF: do juiz discreto ao juiz glamouroso

Durante décadas, especialmente até os anos 1970 – quando eu frequentava os bancos escolares da Faculdade de Direito – e 1980, predominava no Brasil uma figura quase invisível: o juiz discreto. Magistrados evitavam eventos sociais, não frequentavam círculos políticos ou empresariais e mantinham uma vida pública extremamente restrita.

O motivo era simples e profundamente ético: não correr o risco de julgar pessoas com quem mantivessem vínculos sociais. A imparcialidade não era apenas um dever jurídico, mas um estilo de vida.

Hoje, esse modelo praticamente desapareceu.

A transformação do modelo de magistratura

O que mudou não foi apenas o comportamento individual dos juízes. Mudou o modelo cultural da magistratura.

Antes, vigorava o ideal do juiz invisível:

  • sem protagonismo público,
  • sem presença midiática,
  • sem capital social fora dos autos.

Atualmente, predomina o juiz-personagem:

  • participa de eventos empresariais,
  • concede entrevistas,
  • mantém presença constante em redes e na mídia.

O magistrado deixou de ser apenas árbitro. Passou a ser ator político-institucional.

A midiatização do Judiciário

A criação da TV Justiça e a transmissão ao vivo dos julgamentos transformaram ministros do STF em figuras públicas permanentes. Isso gerou um fenômeno novo: a midiatização do poder judicial.

Visibilidade passou a significar:

  • poder simbólico,
  • influência política,
  • prestígio social.

Nesse ambiente, a discrição deixou de ser virtude. Tornou-se exceção.

A mudança no conceito de imparcialidade

Aqui está o ponto mais grave.

No passado, a imparcialidade era objetiva: o juiz evitava situações que parecessem comprometer sua isenção.

Hoje, a imparcialidade é subjetiva: basta o juiz declarar que se sente imparcial.

Saiu a ética da aparência de neutralidade. Entrou a psicologia da convicção pessoal.

Isso representa uma ruptura profunda com a tradição jurídica clássica.

A captura social pelas elites

O magistrado contemporâneo passou a circular nos mesmos ambientes que empresários, políticos e líderes econômicos. Não se trata, na maioria das vezes, de corrupção direta.

Trata-se de algo mais sutil: integração simbólica às elites.

Quando todos compartilham os mesmos espaços sociais, o conflito deixa de ser percebido como problema ético. Ele se normaliza.

O esvaziamento da suspeição

O instituto da suspeição, que antes era central, tornou-se quase decorativo:

  • raramente é reconhecido de ofício,
  • dificilmente é admitido pelos próprios ministros,
  • quase nunca produz consequências reais.

Na prática, a suspeição virou um instituto desmoralizado.

E o código de conduta no STF?

É nesse contexto que surge a resistência de ministros do STF à criação de um código de conduta próprio.

O argumento formal é conhecido: “Já existem normas suficientes na Constituição e nos códigos processuais.”

O problema é que isso ignora a função real de um código ético: não é regular decisões, mas regular comportamentos, vínculos, exposições públicas e conflitos de interesse.

Recusar um código de conduta significa, na prática, afirmar: quem julga todos não precisa de regras para si.

O paradoxo moral do Supremo

Do ponto de vista filosófico, o paradoxo é evidente:

  • Aristóteles: quem exerce função suprema deve ser exemplo de virtude.
  • Kant: quem cria normas deve aceitá-las como universais.
  • Habermas: legitimidade exige transparência e regras públicas.

O STF hoje possui poder máximo, mas não se submete a um estatuto ético formal próprio.

Isso é institucionalmente anômalo.
E moralmente indefensável.

Conclusão: do poder contido ao poder exibido

O juiz do passado tinha consciência trágica do poder.
Sabia que seu cargo exigia renúncias.

O juiz contemporâneo desenvolveu consciência estética do poder.
Prefere visibilidade, prestígio e centralidade pública.

Um temia comprometer a função.
O outro gosta de encenar a função.

Sem autocontenção, sem código de conduta e sem cultura ética forte, o Judiciário deixa de ser poder contramajoritário e passa a ser apenas mais um ator integrado às elites que deveria julgar.

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