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Rabiscos

Convido você a mergulhar nesta seção, carinhosamente chamada de rabiscos, onde compartilho meus pensamentos, algumas estórias envolventes e temas leves, mas cheios de significado. Quero muito dividir com você, que chega até este blogue, meus sentimentos mais sinceros. Não perca a oportunidade de se conectar comigo e, quem sabe, se identificar ou se inspirar nessas linhas. Venha fazer parte desta troca!

Muito Estranho

Um quarto com janela aberta, luz do luar, candelabro aceso.

A noite estava fria e a cidade lá fora parecia se estender até a eternidade, mergulhada em um silêncio que doía, uma solidão que apertava o coração e um mistério que parecia envolver o mundo inteiro. Mas, dentro daquele pequeno apartamento, havia um santuário, um abrigo onde as almas cansadas encontravam refúgio. Ele abriu a porta devagar, o olhar carregando o cansaço de todas as lutas diárias, o peito apertado pelo peso dos sonhos que teimavam em voar. Ao entrar no quarto, viu ela desperta, olhos que brilhavam com curiosidade e amor sob a luz suave do abajur. Sentou-se na beira da cama, e seus olhos buscaram os dela como se fossem a última esperança de salvação. Sua voz saiu trêmula, quase um soluço, confessando, com todos os medos à mostra, que, se um dia chegasse muito louco, exausto, sem forças, queria apenas que ela deixasse aquela noite saber que um dia foi bom. Era um pedido de socorro, uma entrega, apostando tudo no poder redentor do amor para afastar os abismos escuros.

Ela sorriu com uma ternura tão imensa que pareceu abraçar o universo inteiro, dissipando toda a tristeza do cômodo. Com uma delicadeza infinita, suas mãos tocaram o rosto dele, acolhendo as lágrimas invisíveis que pesavam em seus olhos. Ela o conhecia por inteiro — conhecia as vontades inconfessas do seu coração cansado, o desejo dele de tantas vezes, ficar solto, flutuando como se fosse uma lua a brincar no rosto dela. Sempre presente, aquecendo o que havia de frio, mas guardando em si um mistério, uma distância impossível de alcançar. E foi ali, dentro do abraço dela, que toda a solidão e distância do universo foram varridas, restando apenas aquele instante que parecia eterno, com uma conexão que transcendia a própria vida.

Com a voz rouca, cheia de tremores, quase implorando, ele murmurou: “Cuida bem de mim“. Foi um pedido do fundo da alma, a confissão de quem sabe o quanto pode ser cruel a passagem do tempo, o quanto a vida escorre entre os dedos e leva junto sonhos, medos, esperanças e futuros incertos. Naquele instante, olhando nos olhos dela, o coração disparado, perguntou, como quem tenta gravar na eternidade sua verdade mais pura: “Minha cara, para quê tantos planos, se quero te amar e te amar e te amar por muitos anos?“. Seu maior desejo era agarrar a felicidade que existia ali, agarrá-la forte e nunca mais deixar que ela escapasse entre as sombras do amanhã.

Ele a puxou para um abraço apertado — daqueles que são confessionários silenciosos de risos e lágrimas, de tudo que é dúbio e sincero —, suplicando, com cada gesto, que ela misturasse tudo dentro deles: as dores antigas, as vitórias, os dias de sol e os vazios noturnos, as paixões incendiadas e as incertezas que nunca vão embora. Eles se fundiram um no outro, duas metades que passaram tempo demais perdidas no mundo, para entenderem juntos que aquele segundo era um milagre, um presente raro, e ninguém mais iria dormir e viver o sonho deles. Entregues ao amor, permitiram que ele calasse todos os medos e cicatrizasse velhas feridas. Porque no fim, tudo o que importava era aquele abraço — era um corpo, era um afeto, era o aconchego de existir no outro, e ali estava tudo o que precisavam para viver.

  • Narrativa inspirada na música “Muito Estranho” de Dalto.

Esta tarde vi chover!

Pessoas andando na chuva procurando abrigo para não se molhar.


A chuva começou a cair pesadamente naquela tarde, como se acompanhasse a tormenta dentro de mim. Da minha janela, assisti as pessoas se apressando pelas calçadas, buscando refúgio em gestos apressados — e tudo parecia tão distante, tão alheio, porque o mundo lá fora era pressa enquanto, dentro de mim, só existia a lentidão arrastada da saudade. Você não estava aqui. Essa ausência pesa no peito como feixe de água que não cessa.

Minha mente fugiu para aquela outra noite em que o céu estava magicamente limpo; vi uma estrela azul solitária, brilhando firme e vulnerável em meio à vastidão escura. No silêncio daquele instante, procurei a sua mão, ansiando por um toque que não veio, porque, mais uma vez, você não estava. As lembranças se atropelam — a tarde em que atravessei a praça e vi uma jovem apaixonada, com os olhos acesos de esperança, beijando o seu amor, e como esse breve espetáculo ressaltou a minha solidão. Faltava você, e só percebi o tamanho do vazio nessas pequenas cenas cotidianas, onde sua ausência gritava tão alto.

O outono chegou de mansinho, pintando as ruas com um tom triste que ecoava meu coração. O vento frio, implacável, sussurrava seu nome, brincando com a saudade em cada esquina. Quando fui até a praia e ouvi o mar — a canção melancólica das ondas, indo e vindo, sem nunca cansar — só senti a dor de não ter você ao meu lado. Sua ausência era minha única companhia, dolorosa e presente como a brisa salgada cortando o rosto.

A xícara de café já estava fria nas minhas mãos, tão fria quanto a falta que você faz. Olhei para a chuva mais uma vez, e o suspiro que escorregou dos meus lábios foi carregado de tudo o que não digo. A dor que me corrói e consome é admitir que eu não sei o quanto você me ama. As madrugadas se arrastam enquanto me pergunto se você sente a minha falta de verdade ou se estou apenas preso em um sonho solitário.

No final, só me resta uma certeza devastadora: vejo a chuva cair, vejo as pessoas correrem em busca de abrigo e dói perceber que tudo segue, menos o vazio deixado pela sua ausência. Você não estava aqui, e não há refúgio para a falta que você faz.

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