
Nos últimos meses, a imprensa internacional passou a olhar com atenção incomum para o Supremo Tribunal Federal brasileiro. A crítica mais contundente veio da revista britânica The Economist, que descreveu a Corte como uma instituição extremamente poderosa e envolvida em controvérsias que ameaçam sua credibilidade.
Essa avaliação não surgiu isoladamente. Outros veículos estrangeiros também passaram a questionar o funcionamento do STF e a concentração de poder nas mãos de poucos ministros. A leitura externa é clara: o tribunal brasileiro deixou de ser apenas um órgão constitucional e tornou-se um protagonista político central.
Mais preocupante ainda é que existe um fator estrutural pouco discutido no Brasil: a maioria dos ministros do STF não tem origem na magistratura de carreira.
Esse elemento ajuda a compreender por que a Corte se tornou tão expansiva e politicamente ativa.
O que diz a imprensa internacional
A revista The Economist publicou análises recentes afirmando que o STF precisa recuperar a confiança pública e redefinir seus limites institucionais.
Segundo a publicação, o Supremo brasileiro acumulou poderes incomuns para uma corte constitucional e passou a atuar em áreas tradicionalmente reservadas ao Legislativo e ao Executivo.
Leitura recomendada:
- https://www.economist.com/the-americas/2026/02/24/brazils-high-court-is-caught-up-in-a-vast-scandal
- https://www.economist.com/leaders/2026/02/27/brazils-almighty-supreme-court-must-win-back-public-trust
Outros veículos internacionais também fizeram críticas relevantes:
Bloomberg:
Wall Street Journal:
O ponto comum entre essas análises é a percepção de que o STF se tornou uma das cortes constitucionais mais poderosas do mundo, com mecanismos limitados de controle externo.
A concentração de poder em poucos ministros
Grande parte das críticas internacionais menciona a atuação de ministros específicos.
Dias Toffoli
A atuação de Toffoli é frequentemente associada ao crescimento institucional do STF.
Foi durante sua presidência que surgiu o chamado inquérito das fake news, aberto de ofício pelo próprio tribunal. A iniciativa ampliou significativamente o alcance investigativo da Corte.
Para observadores estrangeiros, esse episódio simboliza a expansão institucional sem limites claramente definidos.
Alexandre de Moraes
Nenhum ministro brasileiro aparece tanto na imprensa internacional quanto Moraes.
Ele é descrito como figura central no combate a ataques contra instituições democráticas. Porém, ao mesmo tempo, também é retratado como um magistrado com poderes excepcionais.
Entre os pontos mais criticados estão:
- decisões monocráticas com grande impacto
- investigações conduzidas diretamente pelo tribunal
- medidas contra plataformas digitais
A crítica recorrente é a concentração de autoridade em um único ministro.
Gilmar Mendes (decano)
O decano do STF é frequentemente citado como símbolo da longa politização do tribunal.
Sua trajetória inclui forte atuação pública e participação intensa no debate político nacional. Essa exposição é vista no exterior como incomum para um juiz constitucional.
Na leitura internacional, Mendes representa a fase em que o STF passou a atuar como ator político permanente.
O fator estrutural ignorado: poucos juízes de carreira
Existe um elemento pouco discutido no Brasil que ajuda a explicar o comportamento recente do STF.
A maioria dos ministros não veio da magistratura.
Historicamente, o tribunal tem sido formado principalmente por:
- advogados
- professores de Direito
- membros do Ministério Público
- políticos
Ministros com carreira judicial incluem:
- Luiz Fux
- Rosa Weber
- Marco Aurélio Mello
- Teori Zavascki
Por outro lado, vários ministros influentes não foram juízes:
- Dias Toffoli
- Alexandre de Moraes
- Gilmar Mendes
- Luís Roberto Barroso
- Edson Fachin
- Cármen Lúcia
- Cristiano Zanin
Essa composição é incomum quando comparada a cortes constitucionais de democracias consolidadas, onde a presença de juízes de carreira costuma ser maior.
Magistrados e autocontenção institucional
Juízes de carreira costumam atuar sob forte cultura institucional baseada em:
- respeito a precedentes
- prudência decisória
- limites jurisdicionais claros
Já ministros vindos da política ou da advocacia tendem a possuir:
- visão institucional mais ampla
- atuação estratégica
- maior disposição para intervenções estruturais
Isso não significa que ministros não oriundos da magistratura atuem de forma inadequada. Também não significa que juízes de carreira não tomem decisões controversas.
Mas a tendência institucional é perceptível.
A maioria das decisões mais expansivas do STF recente partiu de ministros sem carreira judicial.
Esse padrão ajuda a explicar a percepção estrangeira de que o tribunal brasileiro se tornou excessivamente político.
O risco para a legitimidade do Supremo
A crítica internacional não se limita a episódios específicos.
O problema apontado é estrutural:
- concentração de poder
- decisões individuais com grande impacto
- pouca contenção institucional
- politização crescente
A conclusão implícita da imprensa estrangeira é preocupante:
o STF corre o risco de perder legitimidade se não redefinir seus limites institucionais.
O tribunal brasileiro tornou-se poderoso sem que surgissem mecanismos equivalentes de controle.
E talvez o problema não esteja apenas nas decisões.
Pode estar também na própria formação do tribunal.
O STF brasileiro possui poucos juízes de carreira e muitos atores oriundos da política e da advocacia.
Essa característica ajuda a explicar por que o Supremo deixou de ser apenas um tribunal constitucional e passou a ocupar o centro da vida política nacional.
