A indicação de Dias Toffoli ao Supremo Tribunal Federal (STF) foi um dos atos mais controversos do presidente Lula. Embora a nomeação tenha sido legal, o erro foi institucional e político: Lula confundiu confiança pessoal com perfil constitucional.
O STF não existe para servir a governos. Pelo contrário, ele existe para conter o poder dos próprios governantes.
Portanto, quando um presidente indica alguém com histórico de atuação política direta, o risco institucional se torna inevitável.
Um erro de critério, não de legalidade
Formalmente, Lula seguiu a Constituição. No entanto, o critério adotado foi equivocado.
Toffoli não veio da magistratura. Antes disso, foi:
- advogado do Partido dos Trabalhadores;
- Advogado-Geral da União no próprio governo Lula;
- integrante direto do núcleo político do poder.
Ou seja, ele chegou ao STF sem a cultura da toga, mas com a cultura do Palácio.
Consequentemente, a Corte passou a receber um ministro com perfil político, e não com formação típica de juiz constitucional.
Falta de distanciamento institucional
O STF exige mais do que conhecimento jurídico. Ele exige:
- independência real;
- distanciamento do poder político;
- histórico de neutralidade institucional.
Entretanto, Toffoli nunca se desvinculou totalmente do ambiente político. Por isso, sua atuação frequentemente se aproxima mais de gestão de poder do que de controle constitucional.
No caso Banco Master, por exemplo, ele não atuou apenas como julgador. Ao contrário, passou a coordenar atos da investigação, interferindo diretamente em diligências e procedimentos.
Assim, o STF deixou de ser apenas árbitro e passou a ser protagonista do processo.
Confusão entre julgar e governar
Aqui está o ponto central.
O STF deve:
- interpretar a Constituição;
- julgar conflitos;
- garantir direitos fundamentais.
No entanto, Toffoli frequentemente atua como se o STF tivesse função executiva, quase administrativa.
Em vez de limitar o poder, ele tenta organizar o sistema, conduzir investigações e interferir na atuação de outros órgãos.
Esse comportamento não nasce do direito constitucional clássico. Ele nasce de uma visão política do poder.
O erro estratégico de Lula
Lula cometeu um erro típico da política brasileira: indicou alguém de confiança pessoal para um cargo que exige independência absoluta, inclusive em relação ao próprio presidente.
No curto prazo, isso parecia lealdade. No longo prazo, virou problema institucional.
Hoje, os efeitos são claros:
- desgaste da imagem do STF;
- conflitos com Polícia Federal e PGR;
- percepção pública de ativismo judicial;
- e até pedidos formais de impeachment.
Tudo isso deriva de um erro original: usar lógica política para ocupar um cargo que exige lógica de Estado.
Conclusão: o preço da politização do STF
Lula não errou juridicamente. Mas errou estrategicamente e institucionalmente.
Ele tratou o STF como espaço de articulação política.
Quando deveria tê-lo tratado como espaço de contenção do poder político — inclusive o seu próprio.
O resultado é visível: um STF mais exposto, mais tensionado, e cada vez mais distante do seu papel clássico de guardião da Constituição.
E esse custo não é de Lula. É da República.
